A importância de fechar ciclos e perdoar as mágoas do passado

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Agora que um novo ano se inicia – aliás, uma nova década! – parece-nos o momento ideal para refletir um pouco e fazer um balanço daquilo que deve seguir connosco para 2020 e o que devemos deixar em 2019.

Para ajudar, deixamos um belo texto de reflexão escrito por Fabíola Simões em A Soma de Todos os Afetos:

“Fui à estreia do novo “Rei Leão” com o meu filho de 13 anos. Já tinha assistido à primeira versão em 1998 e estava feliz por poder dar-lhe a conhecer a história de Simba, Mufasa, Nala e Scar. Uma das grandes lições do filme diz respeito ao “Grande Ciclo da Vida”, e comove-me sempre.

Assim como na natureza, nós também fazemos parte de um delicado equilíbrio, e apesar da nossa resistência e apego ao que foi vivido, somos construção e desmoronamento, emersão e naufrágio, elaboração e aniquilamento, preenchimento e vazio, gozo e desgosto, aflição e satisfação, presença e ausência, perdas e ganhos, finalizações e recomeços, inquietação e reinvenção.

Ver novamente o filme do Rei Leão fez muito sentido para mim, principalmente num momento em que procuro despedir-me de tudo aquilo que antes me definia e que hoje não tem mais cabimento nem lógica na nova etapa da minha vida.

Muitas vezes, nós alteramos as coisas do lado de fora mas não mudamos nada do lado de dentro.

Cortamos o cabelo, mudamos de casa, pedimos a demissão, alteramos o status de relacionamento do Facebook, temos um filho… mas continuamos a repetir padrões de insegurança, orgulho, culpa, mágoa, egoísmo, vitimização.

Aparentamos leveza no sorriso mas temos uma lâmina afiada cravada no próprio peito. Dizemos que a vida continua aos amigos mas no quarto, ao escuro, bate o saudosismo. Parecemos bem resolvidos no discurso mas não conseguimos encontrar sentido no próprio percurso. Arrumar as gavetas e acender um incenso são pequenas atitudes que podem ajudar, mas é preciso mergulhar muito mais fundo se quisermos desconstruir-nos verdadeiramente.

Acho lindos os rituais de passagem festivos e religiosos: as celebrações que assinalam o final da infância e o início da adolescência, as cerimónias de formatura e graduação, o batismo, o casamento. Esses rituais são marcos importantes que assinalam o fim de um tempo e o início de outro, e ajudam na assimilação de que é chegada a hora da mudança. Porém, nem sempre haverá um ritual para nos indicar que um momento de transformação interna se aproxima. Mas, o certo é que mais cedo ou mais tarde, esse momento chegará. Sem barulho, sem placas de aviso. Sinalizado apenas por uma dor ou um desconforto que grita por mudança.

Como uma pedrinha inconveniente dentro do sapato, o momento que antecede a transformação é sempre incómodo. Podemos optar por continuar a andar com aquela pedra saliente no calçado, ou fazer algo a respeito disso. Geralmente, as maiores mudanças vêm de grandes dores.

As maiores transformações acontecem silenciosamente, sem alarde, dentro de nós. Não há barulho, nem mudança no status do Facebook, muito menos fotografias no Instagram. Pode surgir a partir de um motivo grandioso ou de uma frase impactante lida num livro novo.

Naquele momento de transformação que é só seu, você torna-se o guardião da história que quer contar, e rompe os vínculos com tudo aquilo que impede ou dificulta o seu caminho. Você toma consciência das suas autossabotagens, proteções, apegos. Então, decide que chegou a hora de fazer uma fogueira e queimar tudo o que ainda o prende ao passado e que, para seu bem, não pode mais caminhar ao seu lado.

Eu fiz essa fogueira – real e interna – esta semana. Eu vivia de mãos dadas com a nostalgia, e não percebia que ela é irmã da melancolia. Sem noção dos danos provocados pelo apego ao passado, eu colecionava cartas antigas, e juntamente com elas, acumulava mágoas, tanto do remetente quanto de outras pessoas ao meu redor (ouvi dizer que tudo está ligado). Descobri que não adiantava querer livrar-me das mágoas sem me livrar dos seus vestígios. Então, movida pela coragem que o encerramento de ciclos requer, queimei um montinho de memórias com mais de vinte e cinco anos. Foi bonito ver as chamas a subir e descer, e a levar com elas, pelo menos naquele momento, as mágoas e a dor.

Ninguém pode habitar o presente e o passado ao mesmo tempo, e tentar jogar uma partida aqui com o pensamento lá vai sempre correr mal.

Não traga para o presente lembranças dolorosas antigas. Elas estarão sempre envoltas em antigos rancores e frustrações, e você nem sempre dominará as suas emoções. Encerre ciclos, desapegue do passado, não olhe para trás. A vida é uma série de tentativa e erro, arrebatamento e assombro, tragédia e glória. Mas é, acima de tudo, transformação e instabilidade.”

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